Pragmatismo da vida
Lucimeire Santos
De tanto fugir de mim, acabei me encontrando. Continuo, entretanto, sumida, esquecida. Disso, daquilo e daqueles. Eterno equilíbrio instável, agora acompanhado de um estranho bem-estar.
Está certo: por vezes, me considero pragmática e utilitarista. Sobretudo para com as pessoas. Elas me servem em determinada época, dado contexto. Depois, parecem cumprir apenas um papel nostálgico; pano de fundo para as memórias.
Não pense que isso seja algo meticulosamente planejado, maquiavélico, dissimulado. Mais do que pragmático, seria desumano. E, cá, contrariamente à vontade, ainda existe um tanto bom de humanidade.
Há em mim muito mais Freud do que Maquiavel. Talvez um mecanismo de defesa que projete o pragmatismo nos outros, e a crença mordaz na projeção, que me faz agir similarmente ao comportamento que penso existir nos demais. E, afinal, não somos todos pragmáticos nas relações interpessoais?
Acho que o envelhecimento (tenho medo de usar "amadurecimento") nos faz mais utilitários. Menos devaneios, mais concretude, mais ações; fatos. Vida vivida agora – não projetada no futuro. Para mais tarde, virar mero pano de fundo.
É, talvez, a utilidade da vida. Assim, preguiçosamente e sem poesia.
